segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Resenha | Bom dia, Sr. Mandela (Zelda La Grange)

 


Em parceria com Jagleyde Firmino Rodrigues Lima.

Na história da humanidade poucos líderes foram tão enaltecidos quanto Nelson Mandela. Dono de uma alma inquebravél e de uma grandeza capaz de perdoar seus carcereiros em prol de uma nação, saiu da prisão para se tornar presidente e unificar um país.

A unificação conseguida por Mandela foi possível graças a todo conhecimento que ele adquirido ao longo de sua trajetória, e também por ter ao seu lado uma equipe capaz e pronta para a árdua tarefa. Dentro dessa equipe, se destaca Zelda la Grange, a improvável auxiliar que conquistou a confiança de um dos maiores presidentes que o mundo já viu. A história dessa amizade é contada pela própria Grange no livro Bom dia, Sr. Mandela, trazido ao Brasil pela editora Novo Conceito.

Na obra, "Bom dia, Sr. Mandela", Zelda La Grange, apresenta um relato emocionante sobre como foi conviver ao lado do grande líder humanitário Nelson Mandela, enquanto secretária pessoal. Inicialmente tido como inimigo, o presidente terminou marcando a vida da autora, servindo como um professor que ensinou as mais valiosas lições. Para uma melhor compreensão dos fatos narrados, a autora dividiu o livro em 4(quatro) partes principais - “Se for bom não deixe morrer”; "O começo de uma nova aurora"; "Guardiã do homem mais famoso do mundo" e  " O que vem depois?"; além disso, ela apresenta um prólogo e agradecimentos (também valem a leitura).

No Prólogo, a autora prepara os leitores para o relato que virá a seguir. Ao trazer um breve histórico do panorama político que era a África do Sul nas décadas passadas e a intimidade de "neta" que ela construiu com Mandela, já é possível perceber a forte carga emocional que o livro trará.

A primeira parte da obra se chama "Se for bom não deixe morrer" e aborda acontecimentos ocorridos entre 1970 e 1994. Nele, Grange narra como foi sua infância e como o histórico familiar contribuiu para que ela fosse uma apoiadora do sistema de segregação racial, o Apartheid.

Os anos de 1994 a 1999 são abordados na segunda parte do livro, intitulada "O começo de uma nova aurora". Aqui a autora apresenta como foi o início de trabalho com Nelson Mandela na presidência, os desafios encontrados para formar um governo representativo e a deficiência de ter uma mão de obra qualificada, fruto de uma exclusão educacional no período do Apartheid. Outros pontos que merecem destaque foram à relação próxima que Mandela estabelecia com as pessoas a sua volta, a rotina simples adotada por ele e em como as coisas aconteciam de uma maneira muito veloz, o que constantemente demandava da equipe agilidade na tomada de decisões e necessidade de adaptação frente aos desafios que eram postos.

Em "Guardiã do homem mais famoso do mundo", período compreendido de 1999 a 2008, Grange relata os arranjos que a equipe sempre procurou fazer, ao longo das viagens e na rotina de trabalho, para dar mais conforto a Madiba, afinal ele sempre teve uma saúde frágil, muito por conta dos vinte e sete anos em que esteve preso - esses arranjos, em muitos momentos, eram um desafio muito grande por conta dos inúmeros países que era visitado e também pela imensa comoção que a presença de Mandela causava. Outro destaque trazido pela autora era sobre o planejamento das férias presidenciais e as relações que estabeleceu com alguns dos amigos do presidente - assim alguns a viam com desconfiança por ser branca, outros a respeitavam muito. A autora conta ainda como uma das maiores missões de sua vida, a frente do trabalho com Mandela, foi arrecadar fundos para celebrar o nonagésimo segundo aniversário do presidente - onde se recebia milhões de pessoas de todos os lugares. Essa campanha reflete o legado de Mandela, em promover a igualdade e sempre ajudar o próximo.


A última parte do livro, chamada O que vem depois
?, se passa nos derradeiros anos de vida de Mandela (2009-2013). Podemos ver que ao longo de toda sua vida, Nelson Mandela sempre foi um homem que buscou servir a humanidade com todas as suas forças, o que nem as limitações da idade o impediu de fazer. Nessa fase de despedida, aprendemos um pouco sobre como se deu a transição de governo e as honrarias que foram prestadas a um homem, que inegavelmente, entrou para a história como um dos maiores líderes que o mundo já viu.  

Em tempos em que os negros continuam sendo alvos de todo tipo de discriminação, e em muitos casos, de assassinatos de forma tão torpe e incompreensível; a obra Bom dia, Sr. Mandela cumpre com maestria o propósito de informar e fazer refletirmos sobre as mazelas de um sistema de segregação racial e fortalece a fé na humanidade, afinal quando temos bons líderes, é possível guiar a população no caminho de redenção e prosperidade.

...você fica melhor, sente-se melhor e vive melhor se acredita que nossa humanidade comum é mais importante do que nossas diferenças de interesses.

Curiosidade:



Zelda la Grange nasceu em 29 de outubro de 1970. Ela cresceu na áfrica do sul e fazia parte da população branca que apoiava o sistema de segregação racial.

"Quando se é criança é fácil acreditar que o ambiente é seguro. Talvez se eu tivesse sido oprimida, se não tivesse acesso a uma escola decente, uma casa adequada, eletricidade e água, pudesse ter feito perguntas diferentes, e meu cérebro teria se desenvolvido e se tornado mais inquisitivo sobre a injustiça quando eu era mais jovem..."

Com a queda do Apartheid, viria a se tornar uma das assistentes de confiança de Nelson Mandela, aprendendo a respeitar e a honrar o homem que sempre lhe disseram ser inimigo.

Como formação, ela possui um Diploma Nacional de 3 (três) anos na Universidade de Tecnologia de Tshwane. De 1994 a 1996, ela atuou como datilógrafa de Mary Mxadana, secretária executiva particular de Nelson Mandela, o recém-eleito presidente pós-apartheid da África do Sul. Em 1996, foi promovida a secretária particular assistente e, em 1999, foi novamente promovida a Secretária Particular do Gabinete do Presidente. Ela foi um membro fundador da Fundação Nelson Mandela que serviu como escritório pós-presidencial para Nelson Mandela.


sábado, 6 de fevereiro de 2021

Lidos | Janeiro 2021

Fala, galera! Hoje estou aqui para conversar com vocês sobre os livros que li em Janeiro. O objetivo do ano é sair da zona de conforto, e assim conhecer novos autores, lugares e gêneros. Dentro dessa proposta, dos cinco livros lidos, três foram minha primeira experiência com o autor/autora. Iniciei a jornada com uma história sensível de Suzy buscando dar sentido a uma tragédia que ocorreu em sua vida; visitei os porões da ditadura, através da memória de Caetano Veloso; reencontrei Malala, agora numa história adaptada para jovens leitores; me angustei com os animais em surto no mundo distópico de Zoo; e, continuei com o coração acelerado acompanhando Malorie e sua luta pela sobrevivência.

Confiram abaixo mais detalhes sobre os livros:

Suzy e as Águas-Vivas (Ali Benjamim, Verus)

- Sinopse:

Suzy Swanson está quase certa do real motivo da morte de Franny Jackson. Todos dizem que não há como ter certeza, que algumas coisas simplesmente acontecem. Mas Suzy sabe que deve haver uma explicação — uma explicação científica — para que Franny tenha se afogado.

Assombrada pela perda de sua ex-melhor amiga — e pelo momento final e terrível entre elas —, Suzy se refugia no mundo silencioso de sua imaginação. Convencida de que a morte de Franny foi causada pela ferroada de uma água-viva, ela cria um plano para provar a verdade, mesmo que isso signifique viajar ao outro lado do mundo... sozinha. Enquanto se prepara, Suzy descobre coisas surpreendentes sobre o universo — e encontra amor e esperança bem mais perto do que ela imaginava.

Este romance dolorosamente sensível explora o momento crucial na vida de cada um de nós, quando percebemos pela primeira vez que nem todas as histórias têm final feliz... mas que novas aventuras estão esperando para florescer, às vezes bem à nossa frente.

- Motivos para ler:

Suzy e as Águas-Vivas é um livro que merece ser lido, afinal ele traz temas relevantes - como luto, auto aceitação, transição da infância para a adolescência, bullying - que precisam ser discutidos. Além disso, é uma obra que possui uma escrita curiosa e tem potencial para despertar nos jovens leitores o interesse pela pesquisa científica.

- Curiosidade:

De acordo com o THR, a obra ganhará uma adaptação em breve para os cinemas, tendo como protagonista a queridíssima Millie Bobby Brown (da série Stranger Things), direção de Wanuri Kahiu  e com roteiro da estreante Molly Smith Metzler.

 

Nárciso em Férias (Caetano Veloso, Companhia das Letras)

- Sinopse:

Na madrugada do dia 27 de dezembro de 1968, duas semanas depois de o governo decretar o AI-5, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram retirados dos apartamentos onde moravam, no centro de São Paulo, e levados em uma caminhonete ao Rio de Janeiro. Conduzidos por policiais à paisana, eles foram presos sem nenhuma justificativa.

Em Narciso em férias, Caetano Veloso relata o impacto brutal que os 54 dias vividos no cárcere deixariam em sua vida -- não apenas pela dimensão política, mas também pela perspectiva psicológica e artística.

- Motivos para ler:

Essa importante obra de Caetano Veloso nos apresenta aos horrores da ditadura militar. Importante convite para conhecermos um pouco mais sobre a história de nosso país e assim, evitarmos repetir hoje os mesmos erros do passado.

- Curiosidade:

Narciso em férias é o volume avulso do capítulo homônimo de sua outra obra, chamada Verdade tropical. Esta edição inclui uma seção com registros do processo aberto pela ditadura militar contra o cantor e compositor. Esses documentos ficaram guardados no Arquivo Nacional e seriam revelados ao artista pela primeira vez cinquenta anos mais tarde, em 2018.


Malala - Minha História em Defesa dos Direitos das Meninas (Malala Yousafzai, Seguinte)

- Sinopse:

Antes de se tornar uma ativista conhecida no mundo inteiro, Malala era apenas uma garota comum, que vivia com os pais e os irmãos no Paquistão. Quando a região tranquila onde morava foi dominada pelo Talibã, a música virou crime; as mulheres estavam proibidas de frequentar o mercado; e as meninas não deveriam ir à escola. Malala, que desde cedo aprendeu a lutar por aquilo que acreditava, arriscou a vida para defender o direito à educação.

- Motivos para ler:

Desde muito cedo, Malala Yousafzai mostrou que era uma jovem diferenciada. Lutando pelo direito à educação de jovens meninas, desafiou as atrocidades de seu país e mesmo tendo a vida ameaçada, continuou com sua mensagem de esperança. Para os jovens leitores servirá como inspiração e sensibilização para questões mundiais.

- Curiosidade:

Essa obra é uma adaptação para jovens leitores do livro da biografia Eu Sou Malala. Nessa nova roupagem Malala escreve com a co-autoria de Patricia McComirck


Zoo (James Patterson, Arqueiro)

- Sinopse:

Algo está acontecendo na natureza. Uma misteriosa doença começa a se espalhar pelo mundo. Inexplicavelmente, animais passam a caçar humanos e a matá-los de forma brutal. A princípio, parece ser algo que se dissemina apenas entre as criaturas selvagens, mas logo os bichos de estimação também mostram suas garras e as vítimas se multiplicam.

Apavorado, o jovem biólogo Jackson Oz assiste à escalada dos acontecimentos. Ele já prevê esse cenário alarmante há anos, mas sempre foi desacreditado por todos. Depois de quase morrer em uma implausível emboscada de leões em Botsuana, a gravidade da situação se mostra terrivelmente clara.

Com a ajuda da ecologista Chloe Tousignant, Oz inicia uma corrida contra o tempo para alertar os principais líderes mundiais, sem saber se as autoridades acreditarão em um fenômeno tão surreal. Mas, acima de tudo, é necessário descobrir o que está causando todos esses ataques, pois eles se tornam cada vez mais ferozes e orquestrados. Em breve não restará nenhum esconderijo para os humanos.

- Motivos para ler:

Zoo é um livro que possui uma importante mensagem para todos nós. Ele nos questiona que tipo de futuro deixaremos para as próximas gerações; critica os políticos, que estão mais preocupados em manter o próprio status do que o bem do povo; enaltece a importância da ciência, principalmente diante de situações de calamidade pública; e, acima de tudo, engrandece à nossa resiliência, clamando que a gente possa estar sempre refletindo sobre nossas ações, afim de que possamos deixar um legado voltado para o bem comum.

- Curiosidade:

Escrito por James Patterson com a co-autoria de Michael Ledwidge. A obra foi adaptada para uma série de televisão pela CBS, que ganhou três temporadas.


Malorie (Josh Malerman, Intrínseca)

- Sinopse:

Doze anos se passaram desde que Malorie e os filhos atravessaram o rio com vendas no rosto, mas tapar os olhos ainda é uma regra que não podem deixar de seguir. Eles sabem que apenas um vislumbre das criaturas pode levar pessoas comuns a uma violência indescritível. Ainda não há explicação. Nenhuma solução. Tudo o que Malorie pode fazer é sobreviver... e transmitir aos filhos sua determinação. Não se descuidem, diz a eles. Fiquem vendados. E NÃO ABRAM OS OLHOS. Quando eles tomam conhecimento de uma notícia que parecia impossível, Malorie se permite ter esperança pela primeira vez desde o início do surto. Há sobreviventes. Pessoas que ela considerava mortas, mas que talvez estejam vivas. Junto dessa informação, porém, ela acaba descobrindo coisas aterrorizantes: em lugares não tão distantes, alguns afirmam ter capturado as criaturas e feito experimentos. Invenções monstruosas e ideias extremamente perigosas. Além disso, circulam rumores de que as próprias criaturas se transformaram em algo ainda mais assustador. Malorie agora precisa fazer uma escolha angustiante: viver de acordo com as regras de sobrevivência que funcionaram tão bem até então, ou se aventurar na escuridão e buscar a esperança mais uma vez.

- Motivos para ler:

Malorie é um livro que se aproveita dos melhores momentos do seu antecessor para trazer uma história sólida e que se aprofunda na complexidade dos seus personagens principais. O mistério, a paranoia e a brutalidade continuam presentes, agora juntamente com a possibilidade de ter esperanças – elementos que vão agradar tantos aos fãs antigos, quanto àqueles que ainda não conheciam essa distopia do Malerman.

- Curiosidade:

Sequência da obra Caixa de Pássaros.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Resenha | Malorie (Josh Malerman)


 

Em 2015 a editora Intrínseca nos aterrorizou com o livro Caixa de Pássaros, do escritor Josh Malerman, no qual criaturas misteriosas fazem as pessoas enlouquecerem e passem a cometer assassinatos, seguido de suicídio. Após uma adaptação para a Netflix, estrelada pela maravilhosa Sandra Bullock, e milhões de fãs, eis que somos presenteados com a aguardada continuação, chamada Malorie.

Nesta esperada sequência, voltamos a acompanhar a jornada de sobrevivência de Malorie e seus dois filhos (Tom e Olympia). Depois de anos em um abrigo e seguindo as regras que os mantiveram vivos por tantos anos, um novo acontecimento fará com que nossa protagonista tome uma importante decisão, que pode significar um recomeço com a esperança renovada ou condená-los a um trágico fim.

Para aqueles que gostam das coisas explicadas e esperam respostas para suas perguntas, corram de Malorie. Afinal, a preocupação do autor não é com as criaturas, mas sim com a nossa protagonista e seus filhos. Ao longo da leitura, vamos acompanhando como as pessoas do velho mundo precisaram se adaptar a nova realidade e em como os nascidos nesse caos, já não temem tanto as criaturas e se sentem confiantes em realizar alguns experimentos - essa dicotomia entre o velho e o novo é o ponto alto do livro e permite muitas reflexões.

Será que ela não entende que você pode passar a vida inteira de olhos vendados, mas com isso só está perpetuando a mentira de que não pode ver?

Gosto de pensar que as criaturas misteriosas da obra, servem como uma analogia aos medos que os pais nutrem pelos filhos estarem no mundo exterior. Se em casa, é possível protegê-los de todo tipo de sorte, quando eles estão crescidos precisam buscar seu próprio lugar, seja através de amizades e aprendizagens da escola; seja por meio de um emprego, neste mundo tão competitivo. Esse conflito de interesses/temor é muito realçado no comportamento de Malorie em querer dizer como os filhos devem se comportar sob alegação de que isso os manterão vivos, enquanto que Olympia e Tom, buscam uma independência, cometendo pequenas infrações e se tornando cada vez mais questionadores. Também é interessante a consciência de Malorie que ela comete excessos e erros enquanto mãe e ilustra isso nos autoquestionamentos que faz ou em flashbacks nos quais lembra de momentos bons e "ruins" que teve ao lado dos pais. Convém pontuar, também, que o excesso de zelo de Malorie, faz com que a leitura, em alguns momentos, seja maçante. O que pode gerar certa insatisfação em muitos leitores.

Além das relações familiares, outros assuntos que precisamos ficar atentos são a adaptação frente a adversidade, os limites da mente humana, as relações sociais em um mundo despedaçado e a aceitação do diferente.

Malorie é um livro que se aproveita dos melhores momentos do seu antecessor para trazer uma história sólida e se aprofundar na complexidade dos seus personagens principais. O mistério, a paranóia e a brutalidade continuam presentes, agora juntamente com a possibilidade de ter esperanças - elementos que vão agradar tantos aos fãs antigos, quanto àqueles que ainda não conheciam essa disposta do Malerman. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Resenha | Zoo (James Patterson e Michel Ledwidge)


A relação do homem com a natureza quase sempre foi predatória. Queimadas, caça, pesca, desmatamento, poluição e aquecimento global são alguns exemplos de como as ações humanas interferem no equilíbrio ambiental.

Tendo como ambientação a conflituosa relação do homem com a natureza, James Patterson, em parceria com Michael Ledwidge, nos apresenta o sensacional Zoo, lançado pela editora Arqueiro.

Na trama acompanhamos a luta do jovem biólogo Jackson Oz para alertar o mundo acerca de um estranho comportamento entre os animais, que tem os deixado mais agressivos, fazendo com que eles ataquem os humanos.

"A vida e a existência nunca puderam ser totalmente entendidas. Estrelas nascem só para explodir. Criaturas caçam outras criaturas e depois morrem. O Universo é um caos de forças irracionais enfrentando-se numa guerra sem fim. A raça humana está agora na outra ponta."

Apesar da premissa homem x natureza não ser original, vide que nos últimos anos vimos lançamentos de filmes como Deus Branco, Fim dos Tempos e Planeta dos Macacos; a obra de Patterson faz alguns alertas muito pertinentes, a exemplo da importância da ciência, da inabilidade dos governos em lidar com crises e do equilíbrio ambiental para as nossas vidas.

Ao longo da leitura de Zoo, logo somos fisgados pela história, graças aos personagens humanos, mas principalmente, pelo ambiente aterrorizante que se é criado - destaque para as locações nos Estados Unidos, África e Índia. Dividir o livro em blocos, nos quais somos apresentados a situações que nos permitem acompanhar o progresso da pandemia e o tamanho de sua gravidade, foi um grande acerto, afinal a todo momento nos sentimos dentro da história.  Cabe destacar ainda, as diversas cenas de ação/terror - em especial, a que envolve os golfinhos e a horda de animais liderada por um macaco (te lembram algo?). Alguns momentos foram estarrecedores pela semelhança com nossa realidade, principalmente o negacionismo da ciência pelos militares (em tempos de pandemia, não lembra um governo de um certo país?). Ah, e não podemos deixar de enaltecer a capa incrível que o livro possui.

Apesar da obra ter me deixado empolgado, alguns contrapontos são necessários. Me incomodou um pouco o fato de Chloe ter ficado em segundo plano da metade pro final da história, mesmo tendo entendido os motivos, creio que essa transição poderia ter sido melhor trabalhada. Outra questão que me deixou com alguns questionamentos foi sobre o desfecho de alguns personagens, como Bárbara e Atilla - o livro deixa um gancho para continuações, que eu espero que aconteça.

Zoo é um livro que possui uma importante mensagem para todos nós. Ele nos questiona que tipo de futuro deixaremos para as próximas gerações; critica os políticos, que estão mais preocupados em manter o próprio status do que o bem do povo; enaltece a importância da ciência, principalmente diante de situações de calamidade pública; e, acima de tudo, engrandece à nossa resiliência, clamando que a gente possa estar sempre refletindo sobre nossas ações, afim de que possamos deixar um legado voltado para o bem comum. 

- Curiosidades:

A obra foi adaptada em formato de série pela CBS e conta com três temporadas.



sábado, 16 de janeiro de 2021

Resenha | Malala - Minha História em Defesa dos Direitos das Meninas (Malala Yousafzai)

 


Atualmente, temos acompanhado o crescimento de grupos de extrema direita no poder,  o que tem polarizado a política e tornado muitos lugares do mundo, regiões perigosas para se viver. Dentro desse contexto, muitos direitos passaram a ser negados e aquelas pessoas que tentam lutar contra a opressão, são perseguidas e muitas vezes sofrem diversas violências - entre elas, até a morte.

Uma das regiões mais violentas que conhecemos é  o Oriente Médio, fruto em grande parte do surgimento do Talibã - um grupo extremista islâmico. Esse grupo, atuou no Paquistão, promovendo o caos e a chacina, destruindo escolas e perseguindo todos àqueles que tentavam restabelecer um pouco de esperança para o povo - uma das pessoas que eles tentaram matar foi Malala Yousafzai.

Malala Yousafzai, na época que sofreu um atentado terrorista, tinha apenas 15 anos, mas já se destacava - internacionalmente inclusive - graças a influência de seu pai, por defender o direito a educação para todas as crianças, em especial as meninas. E é parte dessa história que podemos acompanhar no livro autobiográfico Malala: Minha História em Defesa dos Direitos das Meninas, escrito em parceria com Patricia McCormick e lançado pela editora Seguinte.

"Em um país onde tantas pessoas consideram um desperdício mandar meninas à escola, são os professores que nos ajudam a acreditar nos nossos sonhos."

Essa obra se propõe a apresentar a vida de Malala no vale do Swat em três momentos distintos: antes do Talibã, durante a insurgência do Talibã e após o atentado terrorista que quase lhe tirou a vida.  Aqui já fale o registro de que apesar do livro ser indicado para leitores entre 8 a 12 anos, se faz necessário a intervenção de adultos durante a leitura, uma vez que no conteúdo há passagens de extrema violência  e também questão políticas que podem ser difíceis para o público alvo assimilar.

Ler sobre a vida de Malala é renovar nossas esperanças em um mundo melhor. Além disso, a obra tem um papel importante em denunciar para o mundo como o patriarcado tolhe o futuro de milhões de mulheres, em nome da tradição; as atrocidades que regimes extremistas podem provocar em uma região - mesmo quando são pautados, em algo sagrado (como a religião) -; fazer uma breve análise da insurgência do Talibã e lançar luz sobre acontecimentos e pessoas, que pela distância, passariam longe do nosso conhecimento.

"Nossa família não olhada para a vida e via perigo. Todos víamos possibilidades. Acreditávamos na esperança."

Mesmo com a densidade dos conteúdos apresentados em sua obra, revisitar ou conhecer a história de Malala se torna essencial num mundo em que os nossos políticos dão sinais de esgotamento e a todo momento somos chamados a promover as mudanças que queremos, sendo que a educação se apresenta como um dos instrumentos mais poderosos para isso.

 


Citações | Malala - Minha História em Defesa dos Direitos das Meninas (Malala Yousafzai)

 


  • "Em um país onde tantas pessoas consideram um desperdício mandar meninas à escola, são os professores que nos ajudam a acreditar nos nossos sonhos." - 61
  • "Nossa família não olhada para a vida e via perigo. Todos víamos possibilidades. Acreditávamos na esperança." - 78

domingo, 10 de janeiro de 2021

Resenha | Narciso em Férias (Caetano Veloso)


 A Ditadura Militar foi um período sombrio da história política brasileira que durou de 1964 até 1985. Na época desse regime, os militares tomaram o poder através de um golpe, e passaram a comandar o país de forma arbitraria e repressiva - com direito a torturas, perseguições, assassinatos e diversas outras violências.

Hoje em dia, no campo político, voltamos a ver o radicalismo e o fortalecimento da extrema direita nos cargos de poder, fazendo com que nossa Democracia esteja seriamente ameaçada. Pensando neste difícil contexto, é importante voltarmos ao passado e ouvirmos as vitimas da Ditadura, para que a gente não repita os mesmos erros no futuro. Assim, Caetano Veloso, através da Companhia das Letras, nos apresenta Narciso em Férias, um relato na época em que ele foi preso de forma arbitrária pelos militares que estavam no poder.

"... nós nos sentimos como vítimas de um sequestro comum, embora de certo modo soubéssemos que estávamos exatamente inaugurando um período em que, no Brasil, cada vez mais pessoas sentiriam medo das autoridades e não dos delinquentes..."

Narciso em Férias é uma obra de 165 páginas, que foi lançada originalmente em 1997, como um capitulo do livro Verdade Tropical. Agora, se aproveitando de uma maior maturidade para entender a gravidade dos fatos ocorridos na época e também do lançamento do documentário, em 2020 - que leva o mesmo nome do livro - Caetano revive um dos momentos mais complicados de sua vida e apresenta um relato fiel dos 54 dias em que ficou preso, sofrendo violências psicológicas, a ponto de questionar a própria sanidade.  

A leitura da obra não é muito fluída, muito com conta da escrita poética, das divagações - próprias de alguém que está revisitando um período difícil da vida -, das reflexões filosóficas e das idas e vindas dos acontecimentos, sem nenhuma justificativa.  Ao longo de cada página vamos sentindo o crescimento do medo de Caetano e o drama de quem sequer sabia o motivo de estar preso e ainda a incerteza se voltaria vivo para casa. Outra coisa interessante é que o relato em si, não apresenta muito juízo de valor, cabendo ao leitor a pura análise do ocorrido. Os relatórios oficiais apresentados no fim da obra, que Caetano só teve acesso em 2018, enriquece a narrativa e lança luz para que o grande público conheça ainda mais, como as coisas aconteciam em um dos momentos mais vergonhosos de nossa história.

Narciso em Férias é uma obra muito necessária para os dias atuais, afinal temos a chance de aprendermos com o passado, para corrigirmos os erros do presente e assim, construirmos um futuro mais prospero e inclusivo.