domingo, 29 de dezembro de 2019

Resenha | O Perigo de Uma História Única – Chimamanda Ngozi Adichie


As histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada.
Quando falamos sobre o significado de história, o que vem primeiro em nossas mentes? Muitos responderiam que é um estudo sobre o passado da humanidade – um conjunto de observações sobre a evolução, tendo como base uma região, um período ou um povo. Contudo, essa visão “romântica” da história, como uma ciência do conhecimento pela investigação, cai por terra quando consideramos a realidade da formação das Nações. Na qual, as relações de poder foram forjadas mediante o discurso daqueles que tinham os meios necessários para controlar o que deveria ser dito – assim nasce um fenômeno que podemos chamar de uma única história.
Assim como o mundo econômico e político, as histórias também são definidas pelo princípio de nkali: como elas são contadas, quem as conta, quando são contadas e quantas são contadas depende muito de poder.
Graças a esse evento, colonializadores foram alçados à condição de heróis, libertadores dos “povos oprimidos”; povos ricos culturalmente passaram a ser vistos como vitimas e sofredores, vendidos como escravos; personagens que lutaram por justiça no mundo foram condenados, acusados de motim e de desordem pública; e, ainda hoje, tantos outros exemplos continuam existindo, sendo reproduzidos pela população cada vez mais conectadas com os meios de comunicação a serviço de uma minoria privilegiada.

Indo na contramão da ideia de história única, uma voz tem se levantado na tentativa de desconstruir essa tendência da humanidade. Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana, apresenta no livro “O Perigo de uma História Única” a necessidade de nos colocarmos como questionadores do que ouvimos e procurarmos nos inteirarmos sempre com todas as versões e visões sobre os fatos e acontecimentos que temos acesso.

Chimamanda Ngozi Adichie
Lançado em agosto no Brasil, pela Companhia das letrasO Perigo de Uma História Única é uma adaptação da primeira palestra proferida pela autora no TED Talk, em 2009. A fala de Adichie, agora transformada em livro, é de alguém que já esteve no lugar de reprodução e que alguns momentos não se via na própria história – é o que ela relata no trecho “como eu só tinha lido livros nos quais os personagens eram estrangeiros, tinha ficado convencida de que os livros, por sua própria natureza, precisavam ter estrangeiros e ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar.”
A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história.
O Perigo de uma História Única foi minha primeira experiência com a escrita da Chimamanda Ngozi Adichie. A narrativa é hábil e graças a exemplos pessoais, o leitor se sente como se tivesse conversando com uma velha amiga. Mesclando teorias com momentos vividos pela própria autora, o livro nos convida a refletirmos sobre o nosso papel enquanto agentes sociais, a nossa responsabilidade em filtrar o que nós ouvimos e a nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, para entendermos que a história é feita por múltiplos autores e por isso nunca terá uma única versão.

Em tempos de intolerância e radicalismos, a obra da Chimamanda Ngozi Adichie é um convite para todos àqueles que querem despertar para a maneira que a história é contada e pretendem romper com o ciclo de poder estabelecidos pelas classes dominantes.
… quando rejeitamos a história única, quando percebemos que nunca existe uma história única sobre lugar nenhum, reavemos uma espécie de paraíso.
Sinopse:


Uma das palestras mais assistidas do TED Talk chega em formato de livro. Para os fãs de Chimamanda, e para todos os que querem entender a fonte do preconceito.

O que sabemos sobre outras pessoas? Como criamos a imagem que temos de cada povo? Nosso conhecimento é construído pelas histórias que escutamos, e quanto maior for o número de narrativas diversas, mais completa será nossa compreensão sobre determinado assunto.

É propondo essa ideia, de diversificarmos as fontes do conhecimento e sermos cautelosos ao ouvir somente uma versão da história, que Chimamanda Ngozi Adichie constrói a palestra que foi adaptada para livro. O perigo de uma história única é uma versão da primeira fala feita por Chimamanda no programa TED Talk, em 2009. Dez anos depois, o vídeo é um dos mais acessados da plataforma, com cerca de 18 milhões de visualizações.

Responsável por encantar o mundo com suas narrativas ficcionais, Chimamanda também se mostra uma excelente pensadora do mundo contemporâneo, construindo pontes para um entendimento mais profundo entre culturas.

Resenha | Erotikós – Luciana Fauber


Os poetas tem em mãos um grande poder. Através do dom de brincar com as palavras eles tem a capacidade de despertar nossos instintos mais primitivos, aqueles sentimentos que muitas vezes estão tão guardados que nem nós mesmos sabemos que os possuímos.

Entre os sentimentos eternizados pelos poetas, o amor e a paixão se tornam protagonistas, seja no encontro de duas almas solitárias ou ainda na busca de uma vida platônica. A certeza que permanece é acerca da impossibilidade de ficarmos impassíveis diante do desejo.
Teus lábios são labirintos, Que atraem os meus instintos mais sacanas Teu olhar sempre distante sempre me engana (Engenheiros do Havaí)
E é em cima do desejo que a Luciana Fauber faz suas apostas com o livro Erotikós. Lançado pela editora Vecchio, a obra apresenta poemas que retratam encontros de pessoas apaixonadas ou não que se deixam levar por esse sentimento simples, intenso e instintivo – sem necessariamente se tornar vulgar.

Luciana Fauber
A leitura do Erotikós, me tirou totalmente da zona de conforto. Primeiro por não estar habituado a ler poesias e segundo, por nunca ter lido nada no gênero erótico. Contudo, foi uma experiência prazerosa e surpreendente, uma vez que a Fauber, de forma sensível, preferiu narrar a reação das pessoas nesses momentos íntimos – o que atribui ao livro, um valor sentimental e singelo.

Dona de uma alma de poeta e com uma sensibilidade muito peculiar, Luciana Fauber utiliza o brincar com as palavras para presentear seus leitores e todos àqueles que querem fazer novas descobertas literárias, com um livro rico de sentimentos e de momentos “calientes” – que é capaz de fazer despertar para a vida até aqueles mais resistentes.

Sinopse:


Paixão, amor e desejo. Intrínsecos ao ser humano, juntos significam uma experiência única aos que se disporem a, simplesmente, arriscar. Em um ato de rebeldia e descoberta, Erotikós surgiu para unir esses três elementos em poemas que são capazes de percorrer a alma de forma quente e sublime: seja a paixão de uma noite só ou o amor que é construído todas as manhãs entre os lençóis da cama.

Por meio de uma linguagem branda e poética, somos levados a encarar diversas perspectivas do que significa amar e desejar alguém, através de personagens sem nome, sendo lembrados constantemente sobre as formas que podemos olhar aquele que amamos. Da primeira gota de suor ao encontro entre dois corpos, Erotikós nos ajuda a responder uma pergunta: Quem é você quando a alma estremece e o coração bate mais forte?

Resenha | Entre uma Dose e Outra de Amor – Matheus José


No mundo, alguns nascem com a sorte ou azar de sentir demais. São capazes de encontrar pérolas no comum, no habitual, como se fossem mergulhadores que buscam tesouros em embarcações naufragadas, por tanto tempo esquecidas em um silêncio que pressiona os ouvidos. Também são aqueles que encontram pequenas surpresas no dia a dia e que são levados por um impulso a eternizá-las em poesia, numa necessidade que não pode ser suprida senão pela palavra. Assim, nasce um poeta.
Felizes de nós, mortais, termos os poetas para traduzir em palavras o que sentimos com o coração. E é pela riqueza de sentimentos que as obras de Matheus José vem se destacando.

Dono de um início promissor, com o romance Dante e Beatriz, no qual, de forma brilhante, o nosso jovem escritor reconstitui uma história de amor, através de passagens da vida do famoso Dante. Matheus José vem mostrando todo seu talento com as palavras, entregando histórias com significados e capazes de aquecer os corações dos leitores.


Em seu mais novo lançamento, através da editora VecchioEntre uma Dose e Outra de AmorMatheus José nos revela nas idas e vindas da vida. Refletindo de forma poética, nos redescobrimos como seres formados pelo resultado de tudo que vivemos – memórias, pedaços que deixamos e impressões que carregamos. A leitura dessa obra despretensiosa foi um convite à revisitar velhas lembranças, a reviver bons momentos e a certeza que muitos aprendizados ficaram dos momentos mais dolorosos que vivemos. Além de ter ilustrações que casam com os sentimentos que o livro pretende passar, a obra ainda possui muitos trechos marcantes.
Matheus José
… fui silêncio enquanto meu peito gritava, fui companhia enquanto me sentia só, fui amor enquanto tudo era caos, fui sorriso enquanto por dentro, chorava, fui ódio enquanto sonhava em ser paz, fui sonho enquanto só via pesadelo, fui manso enquanto queria ser intenso, fui o inverso desses momentos, fui muitos de mim. Só não consegui ser um só.
Entre Uma Dose e Outra de Amor é aquela leitura indispensável, que aquece nossos corações e nos dá aquele dedo de coragem que precisamos para vivermos nossas histórias e nos redescobrirmos com a vida.
“Hoje, depois de alguns tropeços e joelhos ralados, eu aprendi a esperar. Não aquela espera inerte, vegetativa e utópica, que se vive em busca de uma mensagem da paixão platônica ou a volta de pessoas especiais que já se foram. Mas aquela espera pelo tempo certo, pelo momento ideal em que a vida me trará bons momentos e estampará em meu rosto toda felicidade que mereço.”
Curiosidades:

  • Matheus José é fundador da editora Vecchio.
  • A editora Vecchio é parceira do Capacitor.
Sinopse:


Em “Entre uma dose e outra de amor”, percebemos que somos feitos de idas e vindas, de olás e despedidas, dolorosas, saudosas, mas que resultaram no calor de boas memórias, de pessoas que chegaram e partiram, levando um pouco de nós e deixando conosco uma parte de si. Encontramos nestas páginas sentimentos que precisaram ser contidos no papel como uma forma de organizar ou desorganizar, de dar voz ao que estava enterrado no peito, nas memórias que podem ser muito bem de todos nós.

Resenha | O Vendedor de Sapatos – Bruno Peres


as boas oportunidades surgem quando realizamos o bem e movimentamos tudo ao nosso redor.
As vezes estamos com muitas dúvidas na vida e ao pedirmos por orientações elas surgem da forma mais despretensiosa possível. Seja através de uma viagem, de uma mensagem de um desconhecido, de um amigo ou até mesmo de um livro. E é nessa última opção que aparece a obra O Vendedor de Sapatos.

Bruno Peres
Escrito pelo paulista Bruno Peres e lançado pela editora Alicanto, acompanhamos a história do jovem Ricardo, que frustrado por conta de que a viagem dos seus sonhos não vai mais acontecer, se precipita e vê sua vida desmoronar do dia pra noite. Desempregado, solitário e se sentindo injustiçado, resolve voltar para a casa dos pais, onde ele reencontra o tio-avô Alberto e recebe um convite para uma viagem que mudará para sempre a sua vida e a forma como ele enxerga o que realmente importa.

O Vendedor de Sapatos é antes de tudo um convite para refletirmos sobre a vida e nossas escolhas. Assim como Ricardo, ao longo da leitura, vamos identificando uma série de pontos em comuns – pequenas frustrações que sugam nossa energia e nos faz perder a paixão pela vida. Daí vem a necessidade de aprendermos com os Albertos que conhecemos em nosso caminho (familiares e amigos mais experientes), no intuito de viajarmos para fora de nós mesmos e reencontrarmos os elementos que reacendem a nossa paixão por viver. Um destaque negativo sobre a obra é em relação a revisão textual, existem erros de espaçamento e parágrafos sem conclusão de ideia.

Bruno Peres utiliza elementos que vemos em obras consagradas, a exemplo do Pequeno Príncipe, no qual através do diálogo sempre aparecem ensinamentos e momentos de reflexão – nos quais sempre remete as questões de companheiros, solidariedade e bondade. Em muitas passagens, surgem trechos marcantes e que merecem ser destacados para uma futura nova visita.
é muito comum julgarmos as pessoas com base em nossas experiências. Tudo o que vimos, ouvimos e vivemos são usados para criar nossas bases de julgamento. Por isso, algumas pessoas se mostram mais abertas as diferenças do que outras.
O Vendedor de Sapatos é uma daquelas preciosidades que nos chegam por acaso, mas que nos marca de tal forma que é impossível voltarmos a sermos ao que éramos antes. Mesmo o livro sendo narrado de forma simples, todos deveriam ler e colocar em prática os ensinamentos que seu Alberto transmite, para que assim tenhamos um mundo melhor.
Ajudar nem sempre é apenas dar algo a alguém, a caridade está em entender as pessoas, em apoiar a seguir com suas vidas. Nem sempre elas precisam apenas de uma doação.
Sinopse:


O vendedor de sapatos trás a jornada de Ricardo em uma viagem inesperada de autodescoberta. Jovem e imaturo, Ricardo possuía o costume de depositar seus problemas sob a responsabilidade das pessoas a sua volta sem perceber. Seu destino muda ao encontrar-se com seu tio-avô, Alberto, que o leva em uma viagem repleta de conhecimento e bondade pelos caminhos da experiência de um homem, que viveu tudo o que a vida pôde lhe oferecer.

Resenha | A Garota Marcada Para Morrer – David Lagercrantz


Todos nós temos coisas na vida que não conseguimos encarar …
Às vezes, durante a infância, acontecem situações que deixam marcas tão profundas na vida de uma pessoa que elas vivem assombradas pela vida toda. A Garota Marcada Para Morrer é a conclusão épica do acerto de contas entre Lisbeth Salander e o seu passado.

Iniciado por Stieg Larsson com o livro O Homem Que Não Amava as Mulheres – primeiro livro da série Millennium -, chegamos ao fim da jornada de Lisbeth com esse sexto livro, escrito por David Lagercrantz e mais uma vez trazido aos leitores  brasileiros pela editora Companhia das Letras.

Stieg Larsson
Na trama apresentada, vemos que a fúria sempre esteve presente em Salander e graças a ela e ao desejo de vingança, resolve mudar de estratégia – ao invés de continuar sendo caçada por seu passado (na figura de sua irmã Kira/Camilla), ela decide ir a caça e colocar de uma vez por todas um fim na história tenebrosa do seu passado. Com inúmeras sequências de ação e investigação que nos remete aos grandes filmes de espionagem; com direito a política sueca, hacker, máfia russa e paisagens fantásticas que vão do Monte Everest até o litoral da Suécia, com passagens pela Rússia; corremos para acompanhar o desfecho dessa história que promete ser fatal.

David Lagercrantz
O ritmo de leitura é alucinante, e aqui devemos fazer os primeiros elogios ao Lagercrantz. Se nos volumes 4 e 5, ele pareceu tímido e perdido com os rumos da história, afinal nem todo mundo tem a ousadia de continuar a história de seu grande ídolo. Aqui ele soube se utilizar de velhos personagens, como Mikael e a própria Salander, para sustentar a obra; e com a ajuda de luxo de novas aparições, como Catrin, que mesmo com seus próprios mistérios trouxeram um frescor para a trama.

A escolha de apresentar duas grandes histórias dentro de uma foi melhor trabalhada aqui, o que deu dinâmica e fisgou os leitores, como só Larsson vinha conseguindo. A história paralela sobre uma catástrofe ocorrida durante uma expedição de montanhismo – que por si só já valia um livro (visto a riqueza de eventos e detalhes que ela esconde) – serve perfeitamente de elo entre os personagens e aos poucos vamos sendo lançados à história principal e a toda tensão que ela carrega, chegando a fazer com que os leitores sintam as faíscas do conflito que está por vir – numa espécie de bomba relógio, que quando explode ninguém fica impassível.

Ainda sobre a leitura vale trazer dois pontos negativos. O primeiro é sobre a (não) utilização da revista Millennium, o núcleo que dela faz parte fica escanteado nesse livro, só reaparecendo no finzinho da história, para servirem como figurantes. O outro ponto que pode desagradar aos fãs, foi o fato de que alguns personagens não tiveram um desfecho, algo que seria melhor trabalhado se o Epílogo tivesse sido melhor aproveitado. Contudo, essa falha em nada compromete o fim da obra – quem sabe se esse “esquecimento” do autor não tenha sido proposital já pensando em possíveis futuras histórias.

Após a morte do Stieg Larsson, a saga Millennium parecia ter chegado a um fim melancólico e inconclusivo – especialmente após as duas continuações. Entretanto,  David Lagercrantz pareceu que ouviu as críticas anteriores que recebeu e aprendeu muito com elas. Dessa forma, terminou entregando um capítulo final digno e cheio de adrenalina que agradará em cheio os fãs mais devotos da nossa amada  hacker Lisbeth Salander e do nosso super jornalista Mikael Blomkvist. A literatura sueca vive!!!

Curiosidades:

  • A saga Millennium é uma sextologia composta pelos seguintes livros: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, A Menina Que Brincava com Fogo, A Rainha do Castelo do Ar, A Garota na Teia de Aranha, O Homem Que Buscava Sua Sombra, A Garota Marcada Para Morrer.
  • A saga foi escrita por Stieg Larsson e após o terceiro volume, por David Lagercrantz.
Sinopse:


No livro que encerra a saga eletrizante da hacker Lisbeth Salander e do jornalista Mikael Blomkvist, a garota com a tatuagem de dragão vai acertar contas com sua irmã gêmea e arqui-inimiga.

Um homem é encontrado morto num parque no centro de Estocolmo. Parece se tratar apenas da morte trágica de um sem-teto, mas, apesar de ter características muito distintivas, ninguém é capaz de identificá-lo. A médica legista Fredrika Nyman suspeita que haja algo de errado e contacta Mikael Blomkvist. O jornalista se interessa pelo caso, ainda que com relutância. O mendigo foi ouvido muitas vezes murmurando coisas sobre Johannes Forsell, o ministro da defesa da Suécia. Haveria uma conexão genuína entre eles?

Blomkvist precisa da ajuda de Lisbeth Salander. Mas depois do funeral de Holer Palmgren, ela saiu do país sem deixar qualquer rastro. O paradeiro que ninguém conhece é Moscou, onde ela está para acertar contas com sua irmã Camilla de uma vez por todas. No sexto e último volume da série Millennium, criada por Stieg Larsson e assumida por David Lagercrantz a partir do quarto livro, estão interligados escândalos políticos e jogos de poder internacionais com tecnologia de DNA, expedições nos Himalaias e fábricas de trolls que espalham ódio e notícias falsas.

Resenha | O Instituto – Stephen King


No universo literário poucos escritores são tão reverenciados quanto Stephen King. Dono de uma extensa bibliográfica, King é cultuado e aclamado graças ao horror, principal elemento de seus livros.
Algumas obras de King
Em seu mais recente lançamento, O Instituto, lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, vemos uma organização secreta que sequestra crianças com dons especiais, a fim de que elas passem por testes e sirvam como soldados numa guerra que pode culminar com o fim do mundo.

É inegável que King é um escritor incrível e graças a seu talento, ele consegue criar histórias criveis, nas quais todos os elementos se complementam – como verdadeiras peças de um gigantesco quebra-cabeça. Nesta nova obra, não poderíamos deixar de destacar três grandes pontos:

Stephen King
Os Personagens:

Na história há três núcleos de personagens: os funcionários do InstitutoTim e os moradores de Dupray e as crianças.

Os funcionários do Instituto são compostos em sua grande maioria ex-militares, que resolvem ganhar mais trabalhando na iniciativa privada. É liderado pela Sra. Sigsby e que tem no misterioso homem do ceceio, o grande chefe. Eles são responsáveis pela maldade da história. Sequestram e torturam as crianças. Muitos mostram sinais de psicopatia e são extremamente insensíveis aos sofrimentos que causam.

As crianças tem uma faixa etária entre 6 a 18 anos. São sequestradas por possuírem poderes paranormais. Tem como protagonistas o trio formado por Luke, Avery e Sha. É o núcleo que está presente em todas as ações da história. É interessante observar como elas, inicialmente completas desconhecidas, passam a cuidar umas das outras, constituindo uma família (ligação que termina sendo determinante para o desfecho do enredo).
“… o que você fazia por si mesmo era o que lhe dava o poder.”
Tim e os moradores de Dupray, são os “anjos” da narrativa. O senso de dever e justiça de todos eles, fazem com que procurem ajudar Luke, sem medir esforços e os perigos que precisam enfrentar. A existência desses personagens permite ao leitor enxergar a bondade do mundo e traz a questão da eterna luta entre o bem contra o mal.

As localidades:

Instituto fica localizado na floresta do Maine, um lugar isolado e que é circundado por pequenas cidadezinhas, mantidas graças ao aporte financeiro proveniente de fontes desconhecidas. Na história, essa relação de poder e controle fica evidente durante a fuga de uma das crianças e no modo de operar da equipe de busca. Trazendo para a realidade se torna uma discussão interessante a se fazer, visto que muitas indústrias e grandes corporações buscam e atraem esses lugares com promessas de emprego e com o passar do tempo deixam como legado poluição e doenças para seus habitantes.
“— E eu apostaria um milhão de dólares que as pessoas de Dennison River Bend, que é a cidade mais próxima, sabem que tem alguma coisa acontecendo. Alguma coisa ruim. Mas não o quê, porque elas não querem saber. Por que iam querer? Faz com que eles sigam sobrevivendo, e, além do mais, quem acreditaria? Hoje em dia, ainda tem gente que não acredita que os alemães mataram tantos judeus. Chama-se negação.”
O extraordinário:

Para quem acompanha a escrita de King, sabe que o autor sempre traz um elemento fantástico nos seus livros – algo de sobrenatural ou de difícil explicação. Nessa nova história, ele optou por algo comum, a paranormalidade. Algumas das crianças possuem a capacidade de mover objetos, enquanto outras conseguem se comunicar por telepatia.

Com uma leitura ágil, apesar das suas mais de 500 páginas, O Instituto intercala elementos de suspense com cenas de ação, criando um ótimo entretenimento e mexendo com o imaginário dos seus leitores. Em alguns momentos, o leitor pode se chocar, uma vez que os experimentos realizados com as crianças são narrados de forma detalhada – o que traz mais realismo ao livro e coloca os homens, como os grandes monstros da história. Ainda assim, há quem durante a narrativa faça questionamentos se o Instituto é tão vilão assim. Afinal, eles acreditam que estão fazendo o bem para o mundo, com isso os fins justificariam os meios.

Stephen King consegue entregar uma obra cheia de alternativas, que mexe com o público e agradará em cheio aos seus fieis fãs.

Sinopse:


O novo livro de Stephen King, o Mestre do Terror, traz uma história inesquecível sobre um grupo de crianças com talentos especiais que precisam se unir para derrubar um grande mal.

No meio da noite, em uma casa no subúrbio de Minneapolis, um grupo de invasores assassina os pais de Luke e sequestra silenciosamente o menino de doze anos. A operação leva menos de dois minutos.

Quando Luke acorda, ele está no Instituto, em um quarto que parece muito o dele, exceto pelo fato de que não tem janela. E do lado de fora tem outras portas, e atrás delas, outras crianças com talentos especiais, que chegaram àquele lugar do mesmo jeito que Luke. O grupo formado por ele, Kalisha, Nick, George, Iris e o caçula, Avery Dixon, de apenas dez anos, está na Parte da Frente. Outros jovens, Luke descobre, foram levados para a Parte de Trás e nunca mais vistos.

Nessa instituição sinistra, a equipe se dedica impiedosamente a extrair dessas crianças toda a força de seus poderes paranormais. Não existem escrúpulos. Conforme cada nova vítima vai desaparecendo para a Parte de Trás, Luke fica mais e mais desesperado para escapar e procurar ajuda. Mas até hoje ninguém nunca conseguiu fugir do Instituto.

Tão aterrorizante quanto A incendiária e tão espetacular quando It: a Coisa, este novo livro de Stephen King mostra um mundo onde o bem nem sempre vence o mal.

Resenha | O Que Aconteceu Com Annie – C. J. Tudor


Há lugares que possuem uma história tão macabra que não teríamos coragem de visitá-los de outra forma, se não fosse através dos livros. Esses lugares podem ser literais, como uma cidade; ou figurados, como o passado das pessoas… Dessa combinação surgiu o livro O Que Aconteceu com Annie, da autora C. J. Tudor.

C. J. Tudor
Lançado em primeira mão para os assinantes do clube de leitura da editora Intrínseca, o Intrínsecos -, a obra possui uma trama bastante instigante, cheia de reviravoltas e com cenas que beiram o sobrenatural. A autora constrói uma história que vai dar calafrio até nos mais destemidos leitores.

Tudo começa com um crime brutal, o assassinato do jovem Ben e aparentemente o suicídio de sua mãe, que leva a comunidade se perguntar quais os motivos que fizeram com que uma professora cometesse tal atrocidade com o próprio filho, ao qual todos gostavam.
“Nunca volte. É o que todos dizem. As coisas vão ter mudado. Elas não vão estar mais do jeito que você lembra. Deixe o passado no passado. Mas é claro que é mais fácil dizer do que fazer. O passado tem o hábito de se repetir nas pessoas… Às vezes, no entanto, não há outra escolha senão a errada.”
Tal fatalidade, oferece a oportunidade perfeita para Joe. Um homem fracassado e atormentado pelos fantasmas do passado. Atolado em dívidas e correndo sérios riscos de morte, recebe um convite misterioso para voltar às suas origens e descobrir o que aconteceu com sua irmã, Annie, que há 25 anos sumiu e quando voltou nunca mais foi a mesma. Logo Joe vai descobrir que quando a vida oferece uma segunda chance àqueles que carregam a culpa e o remorso por algo que aconteceu no passado, nem sempre essa chance significará a redenção…

Cada elemento da história é aproveitado para criar a atmosfera do livro. A cidade em si, Arnhill, esquecida e abandonada a própria sorte, parece que definhou junto com a mina abandonada; rouba a cena ao oferecer à história uma áurea sobrenatural e inúmeros mistérios que faz com que a tensão aumente a cada página.

Tudor é muito feliz ao se utilizar de casos policiais como ponto de partida da história, isso a torna mais crível e, infelizmente, muito próximo da realidade das grandes cidades brasileiras. Ao intercalar dias atuais com o passado, o leitor se vê num verdadeiro quebra-cabeça, e quando achamos que já montamos todas as peças vem um fato novo e nos devolve a estaca zero; esse efeito se deve em grande parte aos personagens, cada um deles possuem inúmeros segredos e a todo momento nos questionamos quem é o verdadeiro vilão. Um ponto negativo encontrado foram alguns erros de digitação, mas nada que comprometa a leitura.
“Estamos sempre ocupado demais, concentrado demais no simples esforço de enfrentar o dia a dia: trabalhar, pagar as contas, a hipoteca, fazer compras… que não queremos olhar mais a fundo. Não nos atrevemos. Queremos que as coisas estejam bem. Que sejam exageradamente boas. Porque não temos energia mental para lidar com o que não está bem. É só quando acontece algo ruim, algo irrecuperável, que vemos as coisas como elas são. Mas aí é tarde demais.”
O livro O Que Aconteceu com Annie merece ser lido por nos fazer refletir sobre como as tragédias do passado impactam em nossa vida; em uma escala menor, por abordar como a omissão da escola impacta na vida dos jovens que sofrem bullying; e, principalmente, pela história em si, que mexe com nossas emoções e nos arrebata a cada reviravolta da trama.

Curiosidades:

O livro O Que Aconteceu com Annie ainda não foi lançado no mercado brasileiro. Sendo que somente os assinantes do Intrínsecos o receberam na caixa de Março.

A autora C.J. Tudor fez sucesso no Brasil com o livro O Homem de Giz.



Sinopse:


Uma noite, Annie desapareceu. Desapareceu de sua própria cama. Houve buscas, apelações. Todos pensaram o pior. E então, milagrosamente, depois de quarenta e oito horas, ela voltou. Mas ela não podia ou não iria dizer o que tinha acontecido com ela.
Algo aconteceu com minha irmã. Eu não posso explicar o quê. Eu só sei que quando ela voltou, ela não era a mesma. Ela não era minha Annie.

Eu não queria admitir, nem para mim mesmo, que às vezes morria de medo da minha própria irmãzinha.